Nunca confie nas baratas!

Escrevi este conto quando, em 2007, o periquito que criávamos aqui em casa foi atacado, dentro de sua gaiola, por um gavião que surpreendentemente apareceu.

“Nunca confie nas baratas“, dizia minha mãe já no alvorecer de minha mocidade. Não entendia ao certo o que ela queria dizer com essas palavras, mas ignorava como quem nunca precisou se utilizar de tal conselho, já que nunca me veio na cabeça de precisar confiar nas tais.

Vivia eu numa gaiola. Sei que não é o lugar mais propício para se passar uma vida, mas confesso de que nunca senti falta de nada. Afinal, nunca conheci nada além de meus singelos 20cm². Tanto não sentia falta que vivia a cantar. Sim! Como era bonito ver a claridade surgir pela janela e os primeiros raios de sol entrarem em minha casa! Me batia forte o coração e uma vontade louca de cantar… cantar bem alto, e vibrar com tão maravilhosa manifestação divina!

Meus amigos, também em gaiolas, cantavam comigo! Oh surpresa! Os conhecia só de canto. Nunca os vi. Mas tinha certeza da presença de cada um. Toda manhã estavam lá, junto a mim, a cantar uma bela canção para o sol! O sol que trazia a luz, que trazia o dia, que trazia… aqueles seres estranhos que me davam água e comida! Que sede! Dessa vez esqueceram de trocar minha água. Acho que eles sentiram a pressãode minha greve de sede e trocaram a água. JÁ TAVA CRIANDO LÔDO! Argh! … bem… ainda bem que agora já fora trocada e posso viver em paz.

Água e alpiste… é só o que me interessa. Para consegui-los passo até minha vida toda cantando, se for preciso. Água e alpiste.

Para ser bem sincero, nunca vi uma barata. Sabe, é que costumo dormir quando elas aparecem… e nem vou me dar o trabalho de não dormir. Elas que vivam sua vida e eu vivo cá a minha vidinha a 20cm². Com água e alpiste, claro.

Pois bem… não era manhã, mas estava no finzinho da tarde… e eu, como de costume, a me despedir do sol. Ele que trouxe tanta alegria para o meu dia. Ele que trouxe a luz. Ele que trouxe o dia. Ele que trouxe água e alpiste. E cantava como quem não se importasse com o que achassem de mim. Cantava porque queria… e meus amigos cantavam comigo. Amigos que eu só conhecia de canto. Nunca os vi, mas eram meus amigos.

Aquele pôr de sol realmente estava belíssimo! Não conseguia me conter com tanta alegria. Cantava e cantava sem parar. Percebi que meus amigos já haviam cessado o canto há um tempo. Eu, porém, não tinha motivos para parar. Era um dia como qualquer outro. Um dia, como qualquer outro que eu precisava cantar, cantar e cantar.

Subitamente me apareceu um pássaro! MEU AMIGO! (Pensei) Mas o que você está fazendo fora da gaiola? Não sabe que por aqui não existem pássaros a voar? Volte para seu lugar e continue a cantar comigo, vamos!

Confesso que fiquei angustiado ao ver que o tal amigo era cerca de 5 vezes meu tamanho, e vinha em minha direção como quem ignorasse o que eu estava dizendo. Percebi que sua intenção não era boa, principalmente quando ele travou seu bico afiado em meu pescoço e arrancou algumas penas.

Puxa! Aquilo doeu! Percebi que de amigo, aquele pássaro não tinha nada, e tratei de me afastar das paredes de minha gaiola. Juro que em toda minha vida nunca reclamei de meu espaço, mas nesse momento difícil, queria que minha casa tivesse bem mais de 20cm².

Tratava de me afastar das garras e do bico de meu então inimigo, mas ele era bem maior que eu. Meu espaço era tão pequeno!

Não lembro bem como aconteceu, mas aquela dor que eu estava sentindo passou. Na verdade eu não sentia mais dor alguma, nem sentia mais vontade de cantar. Aquele pássaro enorme, como num bater de asas havia desaparecido. Estava eu imóvel, e sem reação alguma ao ar que entrara
em meus pulmões.

Como quem deseja a carniça foram aparecendo uma, duas, três baratas. Em pouco tempo eu estava encoberto delas. Foi aí que aquela frase me veio à cabeça. E foi aí que finalmente percebi o quanto ela fazia sentido: “Nunca confie nas baratas!”

Henrique Gogó

One Comment

  1. Rogério
    Posted fevereiro 29, 2008 at 7:00 pm | Permalink | Responder

    Bom o conto, cara. Realmente a gente tem sempre que estar de olho nas coisas, a todo tempo, com olhar observador e crítico.

    Rogério Ferreira

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