A mariposa e a borboleta

Escrevi este conto quando morava na Serra de Santo Estêvão, em Quixadá, no ano de 2004. De fato os locais do texto fazem referência à serra.

Numa serra de beleza inebriante, não muito distante da cidade, encontraram-se a lagarta-borboleta e a lagarta-mariposa.

– Querida, nem te conto! Tu vai ficar abismada, mas tu sabe que quando eu tenho alguma opinião, eu digo logo, né?

– Me conte logo, vá!

– Leve a mal não, mas tu é feia, viu! Bem… diria que maltratada, descabelada, descuidada…
A futura-mariposa ficou desolada com tal sinceridade. Mesmo assim, deu a volta por cima e respondeu:

– Até parece que tu é a “beleza esplendorosa”.

– É verdade que não sou, mas há um porém: em breve vou entrar numa crisálida. Num sei se você sabe, mas essa tal de crisálida é mais ou menos como um salão de beleza particular, fantástico, em que quando eu sair de lá, vou ficar linda, super-fashion. Vou virar borboleta, querida.

– Sinto muito desanimar sua vanglória, mas o mesmo acontece conosco, mariposas.

– Amôor… Acorda queridinha! Eu vou me tornar uma bela borboleta colorida, de vôo delicado, fascinante aos olhos dos homens. E você… ha ha ha… você vai ser uma mariposa cinza, truncadinha, com vôo desengonçado e… PELUDA! Argh! De parecida, só o fato de termos asas… e olhe lá!

Infelizmente a lagarta-borboleta estava certa. Que larva de inseto lepidóptero desgraçada! Pensou a outra, retirando-se para um cantinho escondido, onde chorava sem parar.

Uma lesma, notando o berreiro que se tornava cada vez mais alto, aproximou-se lentamente para não assustar. Exclamou então com um tom animador:

– Chorar é a mais bela expressão de alegria que a alma pode realizar…

– Alegria? Só me faltava essa! Não me bastasse uma impiedosa, agora me aparece uma louca, dizendo que meu choro é de alegria! Minha filha, eu choro é de tristeza mesmo! Choro porque me deparei com a realidade, e a verdade é que me dói! Se por acaso você confundiu meu berreiro com uma gargalhada, peço perdão. Vou tentar deixar mais clara a minha intenção. E desatou a chorar convulsivamente.

– …a mais simples, a mais expontânea, a mais incontrolável. Não ter esse controle é ser livre, é não precisar mais remar, mas ser levado pela correnteza. Continuou a lesma, desconsiderando que fora interrompida.

Como a lagarta a ignorava, continuou:

– A felicidade é sermos o que fomos criados para ser. Como saber o que devemos ser, sem conhecer a nossa verdade? E como pode o caminho à felicidade ser de tristeza? Tu choras de alegria, e não percebes.

– Agora tenho certeza. Você é louca! Escute só: Sempre soube que o que sou hoje é apenas um estágio, uma fase, e que mais cedo ou mais tarde me tornaria uma mariposa…

– Livre, capaz de voar por entre os campos, provando do néctar das mais belas flores…

– Peluda, com traços grosseiros e asas de aparência repugnante. Uma mariposa, não uma borboleta!

Fez-se então um breve momento de silêncio, logo interrompido inesperadamente pela lesma, que não conseguiu conter uma gostosa gargalhada.

– Recuso-me a continuar com esse diálogo! Indagou a que chorava.

– Perdoe minha falta de sobriedade, mas é que isso é tão óbvio!

– O que?

– Jamais tu te tornarás uma borboleta, assim como lesma não é caracol, ou caranguejo não é siri, ou gafanhoto não é mané-magro…

– !?!

– Todos somos diferentes, cada qual com sua particularidade. Não carrego minha casa nas costas, como faz o caracol, isso me torna por vezes mais vulnerável, mas em compensação, por não carregar peso extra, posso correr mais que ele.

– Correr? Você?!

– Bem, foi só um exemplo…

– Oh, sim… entendo.

– Entende?

­- Sim, agora compreendo o sentido da vida. Não serei borboleta jamais, pois não nasci para ser borboleta, nasci para ser mariposa! Sendo assim, minha vontade agora é de ser mariposa, e serei da maneira mais plena possível.

– Vejo que realmente compreendeu.

– Sou grata a você.

– Não seja. Não a mim.

– Por que não devo?

– Por que fui apenas intermédio para que pudesses aceitar a verdade que já tinha sido revelada.

– A quem devo agradecer, então?

– À própria verdade, que sempre fora e que nunca deixará de ser ela mesma.

– Desse dia em diante a lagarta-mariposa passou a viver de maneira nova, sempre paciente quanto ao futuro, e intensamente quanto ao presente.

Nunca mais ouviu-se notícia sobre a lesma. Nem seu nome ou paradeiro.

A lagarta-borboleta… oh sim, ia me esquecendo… tornou-se uma borboleta, tão bela quanto descrevia que se tornaria depois de crisálida.

Borboleteando por entre as flores do jardim de uma casa terra-cota, deparou-se com ilustre presença, e exclamou surpresa:

– Menina… quase que não te reconhecia! Disse, ao avistar a mariposa de longe (esta também já havia saído do casulo).

Deu então dois beijinhos com que em seu rosto, porém sem encostar. Continuou então:

– Ixi… mas você está bem mais piorzinha do que eu imaginei que se tornaria… e quanto pêlo nas costas! Iga! Amorzinho, o que tu tá fazendo acordada hora dessas? Não sabe que as mariposas têm hábito noturno? Ah… já entendi… tá querendo inovar, né? É uma daquelas líderes de algum movimento revolucionário pró-idealista e contra-todo-o-resto, né?

– Não, nada disso! Vim apenas lhe visitar.

– E contemplar minha beleza?! Olha minhas asas! Lindas, né?

– Não… digo, suas asas são muito belas sim, mas não vim por causa disso.

– Veio porque, então? Se aproxegue, venha.

Pousaram então numa pétala de cecília e a mariposa continuou:

– Gostaria de lhe dizer algo que descobri.

– O quê? Não faça suspense! Diga logo!

– A verdade.

– A verdade?!

– Sim! A verdade!

– A verdade que eu conheço é que sou linda, e você é feia, querida.

– Este é o problema! Você só consegue ver isso. Só consegue ver o que lhe convém, ou o que irá aumentar sua própria afirmação para si mesma.

– Isso é fato!

– Não, o fato é que a ilusão de si e do mundo nos torna criadores de uma realidade falsa em que nós mesmos somos o centro dessa realidade.

– Acho que o Sol está começando a afetar alguma coisa nessa sua cachola.

– Limitas tua vida a pousar de flor em flor, tirando para si o que precisas, nunca parando muito em apenas uma, ou dando a mínima atenção para elas, pois para ti todas são iguais, ou tanto faz.

– Olha quem fala! Até parece que tu não faz o mesmo!

– Não faço. Na noite, um ponto de luz, no alto, é o bastante. É o referencial. É certo que também preciso das flores, e elas precisam de mim. Bebo do néctar de uma flor, e com meus pêlos (sim, esses pêlos “horríveis”), carrego a maior quantidade de pólen possível, como gratidão, e pouso em outra, nem que seja pela simples razão de polenizá-la, sem desta tomar nada. Tem outra coisa: meu referencial é a luz, não as flores. Se é a luz que me mostra as flores, porque parar nelas? Por outro lado, se fico apenas com a luz, de nada sirvo, pois além da luz, preciso das flores para sobreviver, e elas de mim. A luz porém, é o principal, pois sem ela, nada vejo.

– Menina! Tô abismada! Queria compreender tudo isso.

– Para tal fim tu precisarias ter pêlos e passar pela experiência da noite! Ah! E na escuridão, tuas belas cores de nada teria utilidade pois não seriam vistas nem por ti mesma.

– Acho que mudei de idéia.

– Já esperava por isso. Nem todos estão dispostos a aceitar o caminho que nos leva à verdade, pois quem não está nele não o compreende, mas que está nele o compreende e passa a distinguí-lo dos falsos.

A borboleta fez como quem estivesse atrasada para alguma coisa muito importante e despediu-se rapidamente da mariposa. Seguiram então cada qual o seu caminho.

Henrique Gogó

One Comment

  1. Rogério Ferreira
    Posted fevereiro 29, 2008 at 7:12 pm | Permalink | Responder

    Um conto sobre a a realidade de de cada um, hein. Tah aproveitando bem as aulas da faculdade!

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